Veredas da informação em culturas de tradição oral…

Prezados Amigos e Amigas!

Já está disponível para download a Tese “Veredas da informação em culturas de tradição oral: a esfera encantada das bibliotecas vivas”, autoria de Edison Luís dos Santos, defendida em 06 de Agosto de 2018, na Escola de Comunicações e Artes da USP – ECA/USP. Defesa da Tese: 6 de agosto de 2018 - 14hs

Resumo: A tese apresenta o estudo de natureza exploratória do processo de produção partilhada de saberes e apropriação de dispositivo de informação desenvolvido com mestres e aprendizes da cultura de tradição oral. A obra resulta de um diálogo na fronteira entre o legado das culturas de tradição oral e as novas tecnologias da escrita, em que experimentamos uma relação com o saber, voluntária e coletiva, da ciência como artesanato. A materialização da produção partilhada de saberes se deu no fazer prático (savoir-faire) por meio do qual os sujeitos do saber aprenderam a conhecer e a fazer juntos.

Palavras-chave: 1. Epistemologia da Ciência da Informação.  2. Cultura – Tradição Oral.  3. Informação e Memória.  4. Dispositivo de Informação.  5. Redes Sociotécnicas.  6. Bibliotecas Vivas

Download Tese Completa: Veredas da informação em culturas de tradição oral

Mediação cultural com os parceiros de Cambury: o rio que muda…

Caros Amigos e Amigas do Quilombo Cambury!!!
A obra está disponível para DOWNLOAD na Biblioteca Digital da USP:
Estação memória Cambury: mediação cultural com os parceiros do rio que muda
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27151/tde-19112013-161748/pt-br.php

RESUMO: estudo exploratório sobre o processo de mediação e apropriação cultural de informação em um contexto social, marcado historicamente pela expropriação cultural – Cambury – uma comunidade rural formada por pescadores e quilombolas que vivem na Mata Atlântica. A análise de campo e as reflexões teóricas se debruçaram sobre o papel do mediador e dos dispositivos informacionais, tendo como referência metodológica a pedagogia dialógica das Oficinas de Memória, espaço privilegiado para experimentação de saberes, trocas culturais e simbólicas. Como resultado, formulamos categorias significativas de análise do mediador cultural, cujo amálgama de saberes (informacionais; procedimentais e atitudinais) julgamos indispensável aos processos de significação em territórios simbólicos diferenciados. Como produto de conhecimento no campo da pesquisa social aplicada, criamos o dispositivo infoeducativo – Estação Memória Cambury – conjugado à interface de comunicação digital; e desenvolvemos referenciais teóricos e metodológicos que podem contribuir em futuras práticas infoeducativas que favoreçam a produção, circulação e apropriação social de saberes com os sujeitos do saber, confrontando-os com a questão do sentido da vida, do mundo e de si mesmos.

Protagonistas de Cambury, 2011-2013.

                       Protagonistas de Cambury, 2011-2013.

SANTOS, Edison Luís dos. Estação memória Cambury: mediação cultural com os parceiros do rio que muda. São Paulo: ECA, USP, 2013. 101p.

Forte abraço do Edison, o violeiro!

Bibliotecas Vivas: donos da voz, do encanto e do feitiço…

A tradição oral é a grande escola da vida, e dela recupera e relaciona todos os aspectos. Pode parecer caótica àqueles que não lhe descortinam o segredo e desconcertar a mentalidade cartesiana acostumada a separar tudo em categorias bem definidas.
Dentro da tradição oral, na verdade, o espiritual e o material não estão dissociados. […]. Ela é ao mesmo tempo religião, conhecimento, ciência natural, iniciação à arte, história, divertimento e recreação, uma vez que todo pormenor sempre nos permite remontar à Unidade primordial. (Amadou Hampâté Bâ, 2010, p.169)

Prezados amigos do Cambury!

Acaba de ser publicado artigo de minha autoria no qual destaco a importância da esfera de saberes dos mestres da tradição oral, em especial, Mestre Alcides Tserewaptu, Mestre Durval do Coco e Mestre Dorival dos Santos. O texto fala das bibliotecas vivas, dos mestres do saber oral, donos da voz, do encanto e do feitiço.

O artigo “MEMÓRIA, INFORMAÇÃO E ENCANTO A ESFERA DE SABERES ENTRE OS MESTRES DA TRADIÇÃO ORAL” é de uma riqueza conceitual, epistemológica e poética que faz gosto em sua leitura. O autor conseguiu colocar para conversar os nossos conversadores/faladores/transeuntes da língua… São os guardiões das tradições populares brasileiras. E dessa roda de conversa, ora de capoeira, ora de samba do recôncavo, saíram cortejos de corpos que existem e persistem pela oralidade. O que está escrito, grafado e desenhado no papel está, ao mesmo tempo, marcado na fala que parece farfalhar na memória das palavras que vão ficando para trás na leitura.

A organização do texto segue uma cadência que permite acompanhar todo passo a passo e os procedimentos metodológicos que foram adotados pela pesquisa. Há trechos verdadeiramente poéticos nos entremeios do discurso. Despontam como lanceiros ou puxadores de rede nas pausas em que o griô respira, ou quando silencia o Mestre capoeirista. Ali adentram Limas, Costas, Pachecos, Geertz, Bosis e Bâs e a prosa versada é costurada no linguajar das palavras que ecoam pelo vento, pela memória, pelo tempo e pelas novas formas de comunicação contemporâneas.

O autor nos aponta estratégias metodológicas de abordagem no conjunto das tradições orais, tendo como principal via a capoeira, que através da cultura tentam reconectar sujeitos a perceberem a presença das ancestralidades nas manifestações de matrizes africanas. O diálogo traçado com as percepções teóricas de Paulo Freire e José Pacheco constrói uma compreensão, na qual, a capoeira exerce sua escrita no corpo e que a oralidade não é acionada somente com algo complementar a educação formal, mas sim, apresenta princípios próprios de ser no mundo. (Renato Mendonça Barreto da Silva)

Disponível para download em: http://abpnrevista.org.br/revista/index.php/revistaabpn1/article/view/735

Divulgação

Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S.l.], v. 11, n. Edição Especial, p. 130-154, out. 2019.

Bibliografia

SANTOS, Edison Luís dos. Veredas da informação em culturas de tradição oral: a esfera encantada das bibliotecas vivas. 2018. Tese (Doutorado em Cultura e Informação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. doi:10.11606/T.27.2018.tde-02102018-163618. Acesso em: 2019-11-07. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27151/tde-02102018-163618/pt-br.php

Jagunços armados aterrorizam caiçaras em Ubatuba

Tamoios News informa:

Jagunços armados estariam utilizando explosivos e muita violência contra caiçaras que vivem no bairro

A Câmara de Vereadores de Ubatuba pediu que o MP(Ministério Público Estadual), as polícias civil e militar e a prefeitura local coíbam a ação de jagunços armados que ameaçam de morte moradores do Ubatumirim, na região norte da cidade.

Os dez vereadores acionaram as autoridades competentes após moradores do bairro comparecerem a sessão do legislativo, portando faixas e cartazes, pedindo ajuda sobre atuação de grileiros, que protegidos por homens armados, estariam invadindo propriedades, praticando violência e aterrorizando as pessoas que vivem no local.

Moradores foram ate a câmara denunciar ação de jagunços

Um dos moradores, Juarez Barbosa Pimenta, ocupou a Tribuna Popular, para cobrar providências dos vereadores e das autoridades locais. “Grileiros, protegidos por jagunços armados, praticando violências e conflitos, aterrorizando o bairro com armas brancas e armas de fogo e invadindo propriedades. Viemos aqui para dizer que estamos vivos”, desabafou Juarez”.

Segundo ele, há mais ou menos um ano, grileiros de Taubaté vem aterrorizando o bairro, fortemente armados. ” Esse grupo Invadiu uma propriedade de família caiçara que reside ali há mais de um século. E mais: Há policiais em folga dando segurança a esses grileiros. Fizemos boletins de ocorrência”, denunciou.

Juarez narrou que“no final de agosto, esse grupo invadiu a propriedade, dizendo-se acompanhados por policiais. Houve vários disparos. Todos foram encaminhados à delegacia. Uma senhora portadora de deficiência, especial, ficou perdida na situação.

“Um morador foi preso acusado de trocar tiros com polícia. Mas eles(os policiais) não estavam ali como policiais, estavam de folga dando apoio aos grileiros”, denunciou Juarez.

“Nós, moradores, viemos pedir aos vereadores que olhem com carinho para essa situação. Esse grupo sempre vem perturbar a comunidade. Como comunidade isolada não temos a presença da Policia, até a Policia chegar lá leva tempo. Por isso nos unimos e estamos todos aqui para pedir que essa Casa vote leis que levem a Segurança a funcionar também para nós.”, cobrou

Juarez disse que na comunidade existem comércios, campings, chalés de aluguel. “Estamos desesperados. . Somos povo ordeiro, queremos ser bem recebidos para receber bem e esse tipo de pessoas, desse nível, não condiz com o perfil da nossa comunidade. Não recebemos ninguém com bala, mas com café e carinho, de braços abertos. É um desabafo da comunidade, clamando por socorro. Somos contribuintes”, finalizou.

Os dez vereadores se sensibilizaram com os moradores do Ubatumirim. Todos aprovaram o requerimento cobrando a imediata intervenção das autoridades no caso. A Câmara destacou o direito constitucional à propriedade, tida como um bem inviolável, argumentando que esse direito vem sendo agredido por tais invasões de terra, “de forma violenta, turbada e clandestina por parte de jagunços portando armas brancas e de fogo”.

O documento considera ainda que “o Município de Ubatuba, dada sua extensa área ao longo da costa, de aproximadamente 100 quilômetros entre as divisas territoriais, tem ficado exposto aos interesses de especuladores que aproveitam-se dessa fragilidade para se dar bem”.

Os vereadores, em unanimidade alertaram ainda que “o problema das invasões de terra vem se propagando por todo o território municipal, com a população cobrando ações mais enérgicas do Poder Público, um esforço significativo para coibir esta afrontas aos proprietários de terra e responsabilizar a quem de direito”.

A Câmara cobrou ainda uma ação mais efetiva do prefeito Délcio Sato para que sua administração, coíba as invasões de terra, principalmente em áreas públicas, responsabilizando a quem de direito administrativa, civil e criminalmente.

Explosivos

Os vereadores anexaram ao requerimento cópias de quatro boletins de ocorrência lavrados entre os dias 17 e 18 de março e 31 de agosto relatando ´diversos tipos de conduta criminosa dos investigados como ameaças, danos a propriedades, posse irregular de arma de fogo de uso restrito, em desobediência ao Estatuto do Desarmamento, furtos ou esbulho possessório.

De um dos boletins consta que foram apreendidos “explosivos, pólvora para recarga de cartuchos, uma carabina calibre 38, chumbo, cartuchos e cápsulas para espingarda calibre 28, três pistolas Taurus 765 e um revólver Smith calibre 32.

PM

A Câmara oficiou o comandante da Policia Militar do estado para que apure os fatos constantes da denuncia de Juarez Barbosa Pimenta, que se houve Policial Militar envolvido nos casos de invasão de terra, os mesmos sejam responsabilizados disciplinarmente pelo Código de Ética da Policia.

Cobraram do comando da Policia Militar, na pessoa do Capitão Robert Scott Neill, à Policia Civil, pedindo ou uma base comunitária na região Norte ou ronda com viatura passando pelo menos uma vez por dia no Ubatumirim.

E, oficializou ao Ministério Público do estado de São Paulo, a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais, com abertura de inquérito se necessário, para também apurar o caso denunciado pelos moradores, para que vidas não sejam ceifadas na violência que vem ocorrendo.

Vereadores

Vereadores cobram providências ao MP, Prefeitura e policias civil e militar

O vereador Junior JR (Podemos) relatou que esteve na comunidade quando da implantação de barreira de acesso a área de praia com toras de madeira e que também foi ameaçado na ocasião. “É inadmissível nos dias de hoje a existência de jaguncismo, coronelismo, pessoas querendo apropriar-se de terras de comunidade tradicional. Fomos sim, ameaçados”, disse..

Junior sugere a instalação de uma base comunitária da PM por lá, “uma região esquecida em muitos detalhes. Assim como temos Base Comunitária da PM na região Sul, na região Oeste e na região Central por quê a região Norte sempre foi esquecida? Se faz necessária uma presença mais ostensiva de aparato de segurança por lá. Temos que ter uma ação conjunta envolvendo Prefeitura/Câmara e PM para buscarmos um espaço físico para essa base”.

O vereador Reginaldo Bibi (MDB) declarou conhecer Juarez Pimenta, como pessoa de boa índole. Prometeu “como policial aposentado, ir ao quartel da Policia Militar para ter maior conhecimento sobre os fatos. Não sou conivente com os atos que ocorreram no local, há inquérito. A Corregedoria da PM nesses assuntos é implacável e podem ter certeza que serão punidos”, comentou.

Bibi disse desconhecer “quem foi lá, sou amigo de todos mas não podemos passar a mão na cabeça de ninguém. A PM não é assim. A atitude de um ou outro não reflete toda a corporação. Capitão Scott não é de passar a mão também. Há inquérito da corregedoria e outro na Policial Civil. Sobre os fatos ocorridos no local”.

O vereador Adão Pereira (PCdoB) reconheceu que “não é a primeira vez que isso acontece. Se alguém se diz dono de terra que venha com documento, com escritura mas não venha com revólver”. Ele sugere que “ pelo menos uma viatura possa pelo menos uma vez por dia ir até no fim da região Norte, até o Cambury para uma ronda diária. Já seria um grande ganho pra população de lá. Acabaram-se os tempos de bang-bang”, disse Adão.

O vereador Claudnei Xavier (PSDB), também ele ex-policial ambiental, disse compartilha a posição de Bibi dizendo que em todo grupo “sempre tem um ou outro que desvirtua ou desmoraliza o todo mas há que se tirar as frutas podres do cesto”. Ele relatou que em seu tempo de policial havia ronda ambiental, ele fazia por lá inspeções com patrulha de rotina e pode compartilhar da vida da comunidade . À época havia recursos e hoje o Presidente quer rejeitar ajuda internacional para ambiente. Não compartilho dessa posição. Temos 100 km de costa para patrulhar”, alegou.

Ricardo Cortes (PSC) também concordou que “é urgente resolver isso, estamos cansados de ouvir esses relatos sobre escrituras falsas, invasões, jagunços protegendo, comércio de droga invadindo. A população está sempre a mercê desses maus elementos. Há Conglomerados imobiliários com interesse no Munícipio mas não estamos na Amazônia. Isso não pode acontecer. Há terras ali do Incra, da União sendo invadidas. Está na hora dos cartórios fazerem fiscalização. Não é só colocar Policia”, enfatizou.

O vereador Rochinha do Basquete (PTB) informou que em seu gabinete já foi procurado também por moradores da Almada, do Cedro com os mesmos relatos de invasões e violências, ambulantes”. Manoel Marques também defendeu uma Base Comunitária na região.

O presidente da Câmara, vereador Silvinho Brandão (PSDB) ratificou “o que cada vereador disse, elogiou a atuação do comando da PM em Ubatuba, capitão Scott, que a gente percebe ser gente de bem com uma visão diferenciada sobre o papel da PM”. Silvinho propôs montar uma comissão com a presença de Juarez Pimenta para a busca de soluções, para apurar responsabilidades e punir com o rigor da lei”.

FONTE: Tamoios News, 9 de outubro de 2019. Disponível em: https://www.tamoiosnews.com.br/seguranca-publica/jaguncos-armados-aterrorizam-familias-caicaras-no-ubatumirim/?fbclid=IwAR0knkSVwT6NJAgx_C4lpjTUCwIZhLr7ezRl_6oy7gXJFyy2jEITvCa-lTM

Estudos sobre Saúde e Saneamento em Cambury

Trabalhos de graduação realizados em Cambury pelas Pesquisadoras de Engenharia Ambiental de São Carlos estão disponíveis para download:

SILVA, Lara Ramos Monteiro & FELÍCIO, Julia Dedini. Saúde e saneamento em comunidades tradicionais e os aspectos socioambientais relacionados: estudo de caso de Cambury, Ubatuba (SP). Monografia de Graduação (Engenharia Ambiental). São Carlos: SP, 2017.

Disponível em: Saúde e saneamento em comunidades tradicionais e os aspectos socioambientais relacionados – PDF

SILVA, Lara Ramos Monteiro. Representações cartográficas no município de Ubatuba (SP): da invisibilidade à valorização das práticas e saberes dos povos e comunidades tradicionais. Projeto (Engenharia Ambiental). Orientação: Marcel Fantin. São Carlos: SP, 2016-2017.

Disponível em: Representações cartográficas no município de Ubatuba – PDF

 

 

Saiu o livreto do INCRA sobre o Quilombo Cambury

O livreto sobre o Quilombo Cambury é da Coleção Terras de Quilombos.

As narrativas falam a respeito da formação, do modo de vida e das lutas travadas por comunidades quilombolas brasileiras para se manter em seus territórios tradicionais. Nesse livreto, a comunidade do Cambury é apresentada em sua singularidade. Uma homenagem tardia aos remanescentes de ex-escravizados que lutaram para conquistar a sua independência e se estabelecer na terra autonomamente. O fato de terem sido deixados à própria sorte após a Abolição resultou em uma multiplicidade de caminhos percorridos para conseguirem consolidar os seus territórios. Foram muitos os modos como ocuparam as suas terras e distintas as maneiras como formaram as suas comunidades, enfrentando todo tipo de desafios para se relacionarem livremente com seu entorno. O conceito de quilombo esteve associado ao período da colônia e do império. Com a Abolição, os quilombos deixaram de ser mencionados, como se o fim de quatro séculos de escravidão significasse a garantia de liberdade. No entanto, os quilombolas continuaram e continuam a lutar para reproduzir seus modos de criar, fazer e viver, resistindo às dificuldades, injustiças e preconcepções legadas pelo período escravocrata.

TODA RESISTÊNCIA É LEGÍTIMA!

Quilombo Cambury, 16 págs.

Referência:

Corrêa, Maíra Leal. Quilombo Camburi / Maíra Leal Corrêa. – Belo Horizonte: FAFICH, 2016.

Homenagem póstuma à memoria viva do Cambury

Sr. Genésio dos Santos (*27.03.1927 – +12.01.2019) fala sobre a grilagem das terras no Cambury e conta um pouco da história e da luta para a formação da Associação do Quilombo do Cambury. Liderança respeitada e o mais antigo morador da comunidade, o mestre foi um símbolo de resistência e luta para a preservação sociocultural do quilombo, ao lado de Simão Preto, que adotou a comunidade para viver e ajuntar forças para o reconhecimento e titulação das terras do quilombo. Em Cambury, vivem muitas famílias caiçaras e quilombolas protegidas pela lei conquistada com muito esforço, embora continuem sendo permanentemente ameaçadas pela tirania do mercado, a impotência e omissão do poder público.

Faleceu o mestre e líder da resistência quilombola: Sr. Genésio

Genésio dos Santos…

… a memória viva do quilombo do Cambury… Jamais será esquecido!!!

Sr. Genésio dos Santos, tinha 92 anos, nasceu em 27.03.1927, e faleceu ontem (12.01.2019). Estamos de Luto!

Provavelmente ele será sepultado no lugar onde ele mesmo construiu com suas mãos: o cemitério de Cambury que fica na praia. Foi um grande mestre do saber e liderança que ajudou a fundar o Quilombo de Cambury. Uma lenda viva que representa um símbolo da luta e resistência do povo negro, quilombola, caiçara e outros guerreiros tupinambás, como Guaixará, Aimberê e Cunhambebe, da região de Ubatuba.

Infelizmente, este homem simples que lutou muito com a vida, já se encontrava em uma cadeira de rodas, em razão de ter sofrido um derrame no início de 2011. Nas últimas visitas que lhe fiz, queixou-se muito que estava com problemas de pressão ocular e catarata, necessitava de intervenção cirúrgica, precisava de cuidados para se tratar e de muita ajuda dos familiares para comprar remédios…

O ESTADO SEMPRE ESTEVE AUSENTE, SOBRETUDO QUANDO O ASSUNTO É SAÚDE PÚBLICA…

…SOBRE A ATENÇÃO E CUIDADOS AOS IDOSOS, NEM SE FALA…

 

Sr. Genésio deixa um legado de memórias e saberes para a comunidade, e para o Brasil. Um homem simples que sempre manteve o entusiasmo e a alegria que contagiam os seus admiradores, com histórias, experiência e partículas de sabedoria que só uma vida sofrida e de luta poderia lhe dar. Antes de ser caiçara, faz questão de dizer que descende de quilombolas. As recordações do passado são as que ajudam a construir a identidade social de Cambury, opinião também compartilhada pelo líder mais importante da comunidade, Sr. Genésio dos Santos:

“Eu, essa pessoa, Genésio dos Santos, que aqui fala com vocês é descendência de quilombo, é descendência de escravos. Eu fui uma pessoa que nasci e me criei aqui. Com a idade de 18 anos eu comecei para andar a vida do mar. Fazendo pesca em barco de pesqueiro até Vitória, Rio de Janeiro. Eu já fui até Brasília, tenho oito Estados do Brasil andados, mas eu quero que o meu final seja aqui. Fundei o cemitério daqui, fui zelador. E eu quero fazer parte dele que fundei com a minha força, com a minha mão.” (Sr. Genésio dos Santos, 2012)

Sr. Genésio, casa de farinha

Sr. Genésio carregando seu inseparável cajado, na Casa de Farinha, hoje desativada.

Trecho de entrevista concedida em 2000, quando tinha 73 anos.

O exame atento da realidade caiçara nos levou à praia do Camburi para entrevistar a um ícone desta cultura, Genézio dos Santos de 73 anos cuja sabedoria e vivência são sinônimos dos descendentes de quilombolas. Nascido e criado no Camburi, homem de muitas vidas, sobreviveu a um naufrágio com seus 17 anos durante um dia inteiro, sendo levado pela correnteza contra a costeira, superou a nove internações e uma pneumonia. Mas nada disso impede do homem que tem sede e fome da sua bandeira brasileira, de palestrar a todos os que o procuram para relatar tudo que os seus olhos já viram…

Procurado por grupos de historiadores, turistas, escritores e repórter de lugares diversos, senhor Genézio é reconhecido no exterior. Já esteve até no senado em Brasília, acompanhado pelo senhor Inglês de 65 anos – também caiçara, morador do bairro – através do Projeto Martim Pescador. Descendente do mestre Basílio, quilombola, senhor Genézio diz ter nascido em berço de ouro, pois a fartura que a mãe terra oferecia na hora da colheita, era a maior riqueza que um homem poderia almejar. Plantava-se banana, batata doce, mandioca doce, inhame, taiova, milho, cana, que era usado tanto para consumo próprio quanto na alimentação dos animais domésticos como, porcos e galinhas.

O homem naquela época – explica o entrevistado – pescava seis meses, semeava e cultivava outros seis. A liberdade do homem era o trabalho, até onde o suor e a força braçal suportavam. Ele diz que o progresso é bom, mais tem um preço, pois o rio antes navegável onde servia de agasalho para os peixes, hoje com a Rodovia Rio Santos, virou um mangue pobre e assoreado. A natureza que tudo dava, hoje somente pode ser olhada e apreciada. Movido pela fé, ele acredita que há de chegar o dia em que os governantes hão de olhar para o Camburi, ponto final do estado de São Paulo, onde a luz elétrica, a estrada e tantas outras reivindicações são os maiores objetivos da comunidade. Acredita que com esta estruturapossa organizar melhor a vinda de turistas, que hoje usam a praia para acampar ao invés dos campings – na baixa estação- não pagando nada por isso. Ele e os outros moradores gostariam de uma orientação de quem tem o conhecimento de outras fontes de renda, porque com setenta e três anos não se tem mais a força de antes, e só de fé não consegue seu alimento, pois tudo que aprendeu durante toda sua vida foi naquela praia e que hoje só lhe serve para contar histórias. Senhor Genézio, fundou em 1967 o cemitério de Camburi, antes os corpos eram levados para o Ubatumirim. Ele fala que naquela época caixão era coisa raríssima, todos eram enterrados em redes a sete palmos da terra. Seus olhos também testemunharam e o fazem, os aparecimentos de diversos OVNIS – objetos voadores não identificados na região. Pai de sete filhos de criação, ele deixa uma mensagem aos jovens: “Que escutem o conselho e a obediência e sinceridade de todos os familiares, para que cresçam com a mensagem do bom caminho conseguindo na vida adulta o conforto da vida material e principalmente da vida espiritual ao lado de Deus quando perderem o fogo da vida aqui na face da terra”.

A entrevista realizada no Camburi nos permitiu, graças à ajuda de Claudia de Oliveira, observar com atenção as variantes da língua caiçara em uma transcrição quase literal do relato do entrevistado ante nossas perguntas.

“Todo mundo criava, um criava dez, otro criava 20, otro criava 30 cabeça de porco, né. Ai, meu pai tinha 25, 30. Então, quando foi uma época, meu pai disse ansi. Tinha dois bem gordo, e ele achava que era muito pra mata pra família. Ai eu me lembro como se fosse onti né. Um dia meu pai disse ansi: -Meu filho ocê vai no vizinho, na vizinhança, onde mora seus tio e oferece quem interessa em compra uns quilo de carne de porco, eu quero mata ele, mas acho que é muita carne pra família, ele ta muito gordo, muito cevado. Ai eu sai de manhã, tomei o café em casa e vim pela vizinhança, que tinha muita gente. Ai eu comecei a chega na casa dum, na casa de outro e oferece.

Sabe o que ele dizia ansi: Meu filho vem cá, o sofrimento que o seu pai ta sofrendo por não acha quem compre. Ai eu ia no chiquerão, no manguerão do porco, aonde tinha, tinha dois também, causo que todo mundo daquele lugar que o sinhô vê hoje, todo mundo criava, então não tinha preço. Agora digo para o sinhô essa criação o sinhô não sai no comercio para compra ração para o animal, então era criado com a alimentação da roça, que era a alimentação dos porco, então numa sumana era alimentado os porco com batata doce, otra sumana com abóbora cuzida com um poquinho de sal, minha mãe lembro bem, minha mãe cuzinhava aquele tachão, né, de abóbora todo cortado, todo picado, dexava esfria pra da aos animal, ai comia os porco, comia as galinha, comia os pato, comia os marreco, todos junto, tudo comia junto. Otra sumana era mandioca cozida. Esta mandioca que já comemo frita, então a gente ia na roça trazia dois, três saco de mandioca. Minha mãe mandava minhas irmã descasca, cortava tudo de pedaço, cuzinhava, colocava um poquinho de sal pra dexava esfria pra da pros animal. Então o sinhô sabe tinha uma soma de uma mistura da alimentação. Era a abóbora, era o inhame, era a taioba, era as banana madura. O sinhô sabe que a mistura é a vitamina melho pra criança e a criação de galinha é a banana madura. A banana madura é acima do milho para ela bota os ovo, desmancha de bota os ovo. Então, cosa que o sinhô não hoje aqui no Camburi.

Naquele tempo passado… Então ela usava, a mãe da criança a tisoura na cabeceira da cama fincada pra que a bruxa não visse o pobre imbigo da criança, isso eu ouvi fala muitas veis.

O que eu falo aqui pro sinhô, não ixisti, agora o eu ixistia no passado era satanás, era o diabo, ele fazia toda a visão e aparecia em forma de que? Em forma de um cavalo, dum cachorro grande pintado, em forma dum animal, não é! Então a turma olhava ansi, era um lobisome, ai botava o nome ansi de lobosime, mas tudo aquela figura. Hoje se contava que na praia, toda sexta-feira, já ouviu fala muito isso, se encontrava duas cabeça, uma batendo na outra fazendo aquela faísca de fogo, as vezes o viajado, pescadô contavom que tavam umas hora no mar, contavom. Otro que ia viajando duas pessoa pelo canto da praia, purque o sinhô sabe que naquele tempo não tinha estrada, saia no canto da praia. Então por muitas veis a pessoa desviava daquele dois encontro, né. Então dizia: _ Ah! Mula sem cabeça! Agora eu digo pro sinhô, sabe pruque que eu so contra estas coisa que to contando pro sinhô pruque muito me contavom, eu num vi isto não sinhô; eu vi otras cosas, otras cosas eu vo fala pro sinhô eu vi. Agora sabe que eu vo dize pro sinhô, que eu não desacredito, porque o livro sagrado, a palavra de Deus, a bíblia sagrada, que conta do começo do mundo, como foi a criação que seu Jesus, né, veio neste mundo, crio, o céu, a terra a forma das arvi e deu nóis aqui na face da terra. Então o sinhô não incontra lobisome, não encontra cavalo sem cabeça, não encontra bruxa, no livro sagrado, de tudo o sinhô encontra, menos isto. Agora satanás, o sinhô encontra. Agora fantasma, fantasma ta no livro, agora quero dize pro sinhô, satanás como esta relatado, ele fazia toda esta parte pra dize que era bruxa, que era cavalo sem cabeça, pruque não esta iscrito hoje isso, o sinhô não incontra nunca (sic).

Foto de Sr. Genésio antes de se tornar cadeirante. O detalhe é que não há quaisquer acessibilidade no Quilombo de Cambury. Faltam pontes, faltam rampas de acesso. A comunidade pretende se vingar na hora de votar!

Já tá passado, já tá com dois ano isto. Que neste horário de verão que entro agora, eu venho de Ubatuba, eu saio de Ubatuba 5h, no ônibus de 5h40 de lá pra cá, não é, que a pessoa chega de dia ainda aqui. Ai eu fui no ponto, na divisa lá em cima e vinha discendo, ai eu vinha com duas sacola, uma sacola aqui, ota aqui. E eu não desço no ponto daquele dali pruque da cobra, pruque do cachorro, nunca desço, quando vo viajá, escondo no mato na hora que eu venho eu pego. Ai o sinhô sabe que eu vinha vindo, quando eu chego aqui, já na viaje pra pega o Camburi descendo, aonde tem uma fabricação da compania dus Ingreis, tava descendo fui peguei uma laje de pedra ali, a laje de cimento, que tem ali no rio, na beira de cima, mas quando eu cheguei na tal da pedra do colete, que agora não tem mais, o mar que tombou a pedra, o nome era pedra do colete, muito bem. E eu avistei uma pessoa que ia daqui para cima na estradazinha assubindo, e tem uma pedra grande de quaguata de mangue aqui encostado, o sinhô descendo a direita, né. Ai eu olhei lá de cima, era o meu sobrinho o Zorinho, ali dono do barzinho ali, aonde tivemo, onde o sinhô falo comigo ali. Só que chego numa conta, ele foi se encostando, aquela pessoa foi encostando nesta pedra grande, encosto e ali desapareceu. Ai eu disse ansi: _ Que negocio é esse. O camarada ta de caso pensado, ele que faze uma tragédia ai comigo, o camarada se escondeu.

Ai eu fiquei meio cabrero, eu vim meu olhando, sondando. Ai o que acontece, num vi ninguém, olhei na pedra em cima, num vi ninguem, aonde será que ta este camarada, né? Ai tinha uma grota ansi nu fundo, ai eu digo ansi, o camarada foi faze um necessidade e ai foi e desceu este corgão ai e foi faze uma necessidade, ai tudo bem. Mas sondei, rodiei as pedra e num vi ninguém, de dia craro ainda. Ai quando peguei uma distancia mais ou meno que o camarada tinha sumido, como daqui o pé de abacate assi no pe da arvi ansi, eu pegava olha pra trais, quando olhei pra trás o homi, né. Olhei pra traz o cidadão em pé, já o camarada desceu, ai o sinhô vê que nisto o camarada virou muleque, aquele moço alto, viro muleque, virou aquele mulecão, eu digo muito bem. Eu disse ansi: _Puxa vida! O camarada é invisível, o camarada daqui eu não inxergo, quando eu disci um pouquinho, olhei pra traz ele tava em pé. Ai eu digo ansi: _ Eu vo vive que não menti, peguei as duas sacola que eu vinha trazendo, passei a mão no pau. Eu digo ansi:_ Eu consigo, eu digo ansi: Em nome do sinhô Jesus, eu digo ansi é o diabo, é o Satanás eu vo da uma paulada nele. Ai o sinhô sabe o que é, eu passei a mão no pau, no cacete, no meu cajado que eu vinha trazendo, passei e fui em busca dele, quando fui em busca dele ele desapareceu”.

Entrevistas concedidas por Sr. Genésio dos Santos, podem ser lidas no blog COISAS DE CAIÇARA:

I – http://ubatubense.blogspot.com/2012/02/especialentrevista-no-camburi-i.html

II – http://ubatubense.blogspot.com/2012/02/especialentrevista-no-camburi-ii.html

III – http://ubatubense.blogspot.com/2012/02/entrevista-no-camburi-iii.html

IV – http://ubatubense.blogspot.com/2012/02/entrevista-no-camburi-iv.html

V – http://ubatubense.blogspot.com/2012/02/entrevista-no-camburi-v.html#more

VI – http://www.coisasdecaicara.blogspot.com/2012/02/entrevista-no-camburi-vi.html

VII – http://www.coisasdecaicara.blogspot.com/2012/02/entrevista-no-camburi-vii.html

VIII – http://www.coisasdecaicara.blogspot.com/2012/02/entrevista-no-camburi-viii.html

IX – http://www.coisasdecaicara.blogspot.com/2012/02/entrevista-no-camburi-ix.html

X – http://www.coisasdecaicara.blogspot.com/2012/02/entrevista-no-camburi-x.html

FONTE: Ubatubense, por Silvio Cesar.