Caiçara é assassinado a tiros durante assalto em Cambury

Nesta madrugada de segunda-feira (06.abril) quadrilha de bandidos matou a tiros o caiçara de 74 anos, conhecido como Sr. Ailton, zelador do camping Ipê, desde a década de 1970. Não resistiu e morreu no local. O seu filho, de 20 anos, também foi baleado por criminosos após o assalto, ocorrido na praia do Cambury, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo.

Preço da vida: quadrilha fugiu com R$ 7 mil

De acordo com a Polícia Militar, cerca de quatro homens invadiram  a casa onde eles moravam no bairro Camburi e fugiram levando dinheiro. A polícia informou que a ação teve início por volta da meia-noite, quando os assaltantes renderam o idoso e a esposa dele pedindo dinheiro. Após ser ameaçado, o homem entregou uma quantia de R$ 7 mil aos criminosos, que ainda o levaram para o lado de fora da casa e pediram mais dinheiro.
Ao perceber que o idoso já tinha entregado todo dinheiro que tinha guardado, a quadrilha efetuou dois disparos contra ele. O homem, que era proprietário de um camping na cidade, ficou ferido no tórax e no abdômen. Ele não resistiu aos ferimentos e morreu no local.

Ao ouvir os tiros, o filho do casal que dormia no imóvel, saiu da casa e se deparou com os assaltantes. Ele foi atingido por um tiro no braço e encaminhado para a Santa Casa da cidade. Após a ação, os criminosos fugiram em motocicletas levando o dinheiro roubado. Ninguém foi preso e o caso será investigado pela Polícia Civil.

Camping Ipê

O Ypê Camping foi fundado no final da década de 1970 pelo Sr. Airton em uma área descampada de 50.000 metros quadrados em frente à Praia Mansa de Cambury, com a ajuda da Elza Fontenelle plantaram árvores frutíferas por todo o camping (araçazeiro, goiabeiras, cajuzeiros etc.), criando o espaço agradável que se tem hoje com sombras e frutas, fizeram também o primeiro restaurante na Vila e banheiros com chuveiro quente aquecido por caldeira (hoje os chuveiros são elétricos e a agua vem direto das cachoeiras).

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Educar é preciso, mas a ciência está cega e o Estado, omisso!

A todos os amigos e amigas da Estação de Memórias Cambury que têm se manifestado neste espaço público infoeducativo, em especial, ao Sr. Paulo Piza Machado, queremos agradecer pelo envio de comentários, críticas, desabafos, apoio; todas essas mensagens estão sendo compartilhados com o(a)s jovens do Cambury que estiverem conectados às redes sociais – link: https://www.facebook.com/estacaomemoriacambury.

Seria muito bom que a Estação de Memórias do Cambury tivesse mais pessoas que participassem desse diálogo, aberto e franco, como tem acontecido nesses últimos dias, com a notícia da morte de Luciana Cruz dos Santos. Infelizmente, nenhum jornal, folhetim, programa de rádio ou quaisquer mídias do município noticiaram o fato, que é de interesse público: diz respeito à saúde dos cidadãos ubatubenses!

Nossos sinceros agradecimentos aos Amigos do Cambury! Estamos buscando as vias de diálogo: afinal, já denunciamos neste espaço a violação dos direitos humanos na comunidade, a falta de acessibilidade e abandono dos idosos, ausência de pontes para locomoção dos moradores do Jambeiro etc. Parece pouco, mas antes disso Cambury sequer aparecia na internet; a Escolinha Jambeiro foi beneficiada com o Programa Arca das Letras, mas não havia mediadores de leitura… No mais, e quase sempre, o bairro era confundido com outra Camburi, que fica em São Sebastião.

A expropriação dos moradores do Cambury tem início com os primeiros grileiros que roubaram suas terras, obrigando-os a assinar papéis em branco, como fizeram com os avós de Luciana, fato que o seu pai, Sr. Salustiano, cansou de denunciar. Não bastasse a discriminação disseminada por parte de alguns turistas que, infelizmente, compraram a ideia de que o Quilombo é apenas o lugar onde mora um “bando de negros pobres”, confinados no morro Jambeiro, que vivem à revelia do poder público, “sem Estado, sem Lei, nem Rei!!!”.

Na condição de amigo da comunidade, na qual sou conhecido por “Violeiro” desde o ano de 1986, também sinto-me INDIGNADO e por esta razão torno públicos meu descrédito, desconfiança e dúvida sobre o papel da Ciência e do Estado, na atualidade:

“As ações culturais da Estação de Memórias Cambury – dispositivo de informação e comunicação digital – tem o objetivo de registrar a memória histórica e cultural da comunidade caiçara e quilombola de Cambury (documentos, fotografias, vídeos, relatos de vida, produtos artísticos etc.), por esta razão entendemos que este espaço de diálogo também é crítico, democrático e aberto. Sempre que possível, não nos limitaremos a informar, mas também discutir e criar. A morte de uma artista quilombola, que participava ativamente de nosso projeto de pesquisa, revela que a ciência está cega e o Estado, omisso e impotente. Se as ciências médicas ao menos ajudassem a mitigar os problemas de saúde da população pobre e negra de Ubatuba… Se o Estado cumprisse seu dever de oferecer serviços de saúde dignos… Certamente, ambos estimulariam possibilidades transformadoras tanto para a sociedade como para si mesmos. Diante de tanta incerteza, oportunamente informamos à comunidade científica que um protagonista de nossa pesquisa morreu de meningite bacteriana. E mais, sem vacinas no município, a família não foi imunizada, tampouco os moradores do quilombo e da praia. Tais fatos deveriam envergonhar qualquer poder executivo. Sentimos que doravante há um vazio insubstituível na comunidade, comprometendo sobremaneira a continuidade de um trabalho investigativo que visa justamente o diálogo entre o saber científico e os saberes do homem simples. Não menos relevante é o desconforto que sentimos e por isso não podemos deixar de manifestar um “GRITO DE PROTESTO” contra a precária situação da saúde pública de Ubatuba que precisa ser denunciada e superada.”

(SP, 29 de janeiro de 2013)
Edison Santos – pesquisador CNPq-DTI-B, PPGCI-ECA, USP.

Veja a Galeria de Arte com as gravuras produzidas por Luciana Cruz – https://estacaomemoriacamburi.wordpress.com/protagonistas/luciana-cruz/

Jambeiro que chora

A arte fala por si mesma. Nesta obra produzida por Luciana, intitulada “Jambeiro”, parece que vemos uma árvore que chora. Prova da Autora (PA), xilo, P&B em contraste dourado, 20.nov.2012. Autoria: Luciana Cruz dos Santos.

Continuamos divulgando este espaço nas redes sociais: https://estacaomemoriacamburi.wordpress.com

Meningite mata jovem artista quilombola em Ubatuba: Cambury está de Luto

País rico é país com educação e saúde pública dignas de todos os brasileiros.

Jovem artista morre de meningite no quilombo do Cambury, Ubatuba

:::::: Segunda-feira, 21 de janeiro, foi um dia muito triste no Quilombo do Cambury.

A adolescente quilombola, Luciana Cruz dos Santos, filha de Dona Cremilda (Catarina) e Sr. Salustiano FALECEU, depois de sentir febre muito alta e dores na nuca, já na sexta-feira. O óbito diz que foi meningite bacteriana. Outros membros da família foram vacinados, mas a comunidade não recebeu a mesma atenção, sob alegação de que o preço das vacinas era muito alto. Não tinha prá todo mundo!!!

Conforme relato de um turista que esteve em Cambury: em 2011 ele passou “quase um ano direto no Cambury, morando no seu Donato em frente ao posto de saúde” e constatou ao longo deste período que “o médico só aparecia uma vez por mês, ficando o trabalho de saúde nas costas das enfermeiras que compareciam diariamente, trabalhando sem recursos”.

Há um problema sério e crônico: falta de qualidade no atendimento ambulatorial e precariendade do sistema de saúde da região de Ubatuba. Não há infraestrutura, tampouco saneamento básico e, conforme já denunciamos aqui: FALTAM MÉDICOS no posto de saúde do Cambury, no qual aparece alguém de 15 em 15 dias, conforme já disseram os moradores caiçaras e quilombolas do Cambury.

A Estação de Memórias do Cambury tem mais uma grande dúvida quanto a um registro fotográfico realizado em 09 de abril de 2012, quando estivemos presentes para visitar o Programa Arca das Letras da Escola Municipal do Cambury. Ao lado fica o “postinho” de saúde. O médico não estava evidentemente, mas na entrada havia um bilhete curioso, no qual NÃO CONSTA o nome de Luciana Cruz dos Santos como beneficiária do serviço de vacinação. Não deveria haver mais rigor no controle epidemiológico por parte da Secretaria de Saúde do município de Ubatuba? Se esqueceram da Lulu? Não teria ela ficado menos imunizada? De onde veio esta bactéria? Quem trouxe, levou embora? Há mais gente correndo riscos de perder a vida?

Questão: Numa comunidade em que prevalece a cultura oral, não seria mais adequado bater de casa em casa (conversar), do que se valer de um dispositivo tão complexo como a escrita caligráfica?

Quem era a Lulu?

Lulu iria completar 15 anos. Uma menina forte, tímida, sorridente e muito trabalhadora. Ajudava os pais e irmãos, era inteligente e se apropriou rapidamente dos saberes artísticos desenvolvidos pelas Oficinas de Memória e Xilogravura. Sempre chegava mais cedo na Escolinha Jambeiro, varria o espaço, esforçava-se para aprender com dedicação e carinho. O resultado evidentemente foi a transformação, de si mesma e do mundo à sua volta: ela transformou os signos e significados de sua vida em ARTE. Foi com grande prazer que comemoramos a entrega do primeiro certificado a ela, a quem foi confiada a tarefa de ensinar o que aprendera aos jovens quilombolas e caiçaras que não puderam participar.

Certificado de reconhecimento concedido à melhor aprendiz de Xilogravura, nas duas edições da Oficina de Memória, Informação e Escrita.

Certificado de reconhecimento concedido à melhor aprendiz de Xilogravura, nas duas edições da Oficina de Memória, Informação e Escrita.

Luciana era uma criança bastante apegada às atividades lúdicas e pedagógicas da Escolinha Jambeiro, desde pequena sempre participou de todas as ações da Escolinha Jambeiro.

Estamos todos muito tristes. Guardaremos a doce lembrança de seus sorrisos, e a ternura de seu carinho. Sempre será a “caçulinha do Cambury”, como disse Andreia Arantes, sua professora.

Destaque das Oficinas de Desenho e Xilogravura: Luciana Cruz foi a primeira a receber o certificado, pela aplicação e dedicação:

Participante ativa das ações culturais desenvolvidas em 2012.

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GALERIA DE ARTE DA LULU

ESTADO QUE MATA…POR NÃO OFERECER SERVIÇOS DE SAÚDE QUALIFICADOS

Lamentamos profundamente o que aconteceu. Luciana Cruz dos Santos foi o grande destaque nas Oficinas de Xilogravura. Aprendeu com amor e dedicação. Seria a nossa multiplicadora da arte xilográfica. Estamos magoados e INDIGNADOS. Queremos manifestar nossos pêsames. Como é que nosso sistema de saúde AINDA deixa uma jovem quilombola morrer de meningite?

Os serviços de saúde em Ubatuba SÃO PRECÁRIOS, INSUFICIENTES, MAL ADMINISTRADOS E COM FUNCIONÁRIOS MAL PAGOS

Exigimos providências e soluções para tantas questões ainda sem resposta. Chega de DESCASO e DESPREZO.

Por que as crianças quilombolas não tem uma atenção adequada por parte do poder público?

DECRETAMOS LUTO OFICIAL NA ESTAÇÃO DE MEMÓRIAS CAMBURY.

Fica a mensagem:

Jamais apagarão da memória as páginas construídas pelos protagonistas do Cambury, sejam eles idosos, mulheres, jovens ou crianças.

Terra deu Terra come

TERRA DEU TERRA COME

Direção: Rodrigo Siqueira, col., tempo de duração = 1:29:32.

Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos de idade, comanda como mestre de cerimônias o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, que morreu com 120 anos. O ritual sucede-se no quilombo Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, Minas Gerais. Com uma canequinha esmaltada, ele joga as últimas gotas de cachaça sobre o cadáver já assentado na cova: “O que você queria taí! Nós não bebeu ela não, a sua taí. Vai e não volta pra me atentar por causa disso não. Faz sua viagem em paz”.

Dessa maneira acaba o sepultamento de João Batista, após 17 horas de velório, choro, riso, farra, reza, silêncios, tristeza. No cortejo, muita cantoria com os versos dos vissungos, tradição herdada da áfrica. Descendente de escravos que trabalhavam na extração de diamantes, nas Minas Gerais do tempo do Brasil Império, Pedro é um dos últimos conhecedores dos vissungos, as cantigas em dialeto banguela, cantadas durante os rituais fúnebres da região, que eram muito comuns nos séculos 18 e 19.

Garimpeiro de muita sorte, Pedro já encontrou diamantes de tesouros enterrados pelos antigos escravos, na região de Diamantina. Mas, o primeiro diamante que encontrou, há 70 anos, o tio com quem trabalhava o enterrou e morreu sem dizer onde. Depois disso, vive sempre em uma sinuca: para reencontrar o diamante só se invocar a alma de seu tio João dos Santos. “É um diamante e tanto, você precisa ver que botão de mágoa.” Ao conduzir o funeral de João Batista, Pedro desfia histórias carregadas de poesia e significados metafísicos, que nos põem em dúvida o tempo inteiro: João Batista tinha pacto com o Diabo? O Diabo existe? Estamos sozinhos, ou as almas também estão entre nós? Como Deus inventou a Morte?

A atuação de Pedro e seus familiares frente à câmera nos provoca pela sua dramaturgia espontânea, uma auto-mise-en-scène instigante. No filme, não se sabe o que é fato e o que é representação, o que é verdade e o que é um conto, documentário ou ficção, o que é cinema e o que é vida, o que é africano e o que é mineiro, brasileiro.

Entre 2010 e 2011 o filme conquistou os mais relevantes prêmios consagrados aos documentários no Brasil. Também recebeu o reconhecimento dos mais importantes críticos de cinema do país.

TERRA DEU TERRA COME venceu o prêmio International Young Talent Competition – Generation DOK – no 53º DOK LEIPZIG, Alemanha, um dos mais tradicionais e importantes festivais de documentários da Europa. Eis as palavras do júri do festival:

“O filme vencedor levou os juízes a um mundo completamente desconhecido (e evidentemente quase esquecido). Seu personagem central — um indivíduo admirável e mesmerizante — é o tipo de pessoa que provavelmente só aparece uma vez na vida de um documentarista. O registro de sua ligação com um mundo de rituais e mitos, à beira do desaparecimento, é a um tempo fascinante e de relevância histórica. O filme claramente se beneficiou do acesso exclusivo (do diretor ao personagem), ganho ao longo de um período de tempo extenso e trabalhado com grande senso artístico. O filme expõe um mundo sobre o qual nada conhecíamos, e o faz de uma maneira encantadora, prazerosa e, por vezes, emotiva, que certamente descortina um novo território e abre as portas para uma verdadeira experiência de documentário.”

 

TERRA DEU TERRA COME é um filme cheio de encantos e encantamentos. Pedro de Alexina, 81 anos, comanda como mestre de cerimônias o funeral de João Batista, morto aos 120 anos. Documentário, memória e ficção se misturam para tecer uma história fantástica que retrata um canto metafísico do sertão mineiro. É preciso ver para crer !!!

http://youtu.be/HP4lxu404vg

In memoriam – Sr. Miguel da Cruz

Hoje faz 90 dias que faleceu o Sr. Miguel da Cruz. Dedicamos este post à lembrança deste velho caiçara, contador de histórias e grande anfitrião que morava na praia de Cambury.

Sr. Miguel da Cruz, como era conhecido em Cambury, tinha mais de 80 anos e estava convalescente desde 2008, sofrendo muito com as complicações de um câncer de próstata e fortes dores no joelho e tornozelo, que o impediam de caminhar, nos últimos anos de sua vida. Faleceu no hospital de Taubaté no dia 8 de maio de 2012 e foi sepultado no cemitério de Paraty. Portanto, a triste notícia ocorreu 15 dias após a 5ª Visita que realizamos ao quilombo de Cambury (6 a 23 de abril).

 

Sr. Miguel da Cruz tinha mais de oitenta anos e faleceu no dia 8 de maio de 2012.

Sr. Miguel da Cruz faz parte de uma das últimas famílias a chegarem em Cambury, na década de 1980, juntamente com a família de João Querino. Era o esposo de Dona Maria Lorena, pai de Simão, Rosa, Rute, Monga entre outros filhos, além de um grande número de netos e netas. Veio de Paraty para morar em Cambury na condição de caseiro da família de José Bento.

Tal fato criou uma situação quase constrangedora frente aos moradores tradicionais, pois a maioria deles sofreu com ameaças, intimidações e tantos outros moradores foram expropriados de suas terras, a mando de Francisco Munhoz e José Bento de Carvalho, dois grandes “expropriadores” de terras na região de Ubatuba.

O quilombo permaneceu relativamente isolado até a década de 1970 quando uma série de acontecimentos ameaçou sua permanência em suas terras e trouxe mudanças para seu modo de vida. A comunidade foi alvo de diversos processos de grilagem e compras ilegais de posse, derivados da especulação imobiliária. No início da década de 1970, 80% do território do Quilombo do Cambury estava sob o domínio e posse de dois grandes compradores de terra, Francisco Munhoz e José Bento de Carvalho, que expulsaram os antigos moradores. Estes se deslocaram para as áreas mais íngremes, de mais difícil acesso, ou se mudaram para outras cidades, tais como Taubaté, Paraty e Santos.

Fica a saudosa lembrança do amigo violeiro, que jamais se esquecerá do dia em que Sr. Miguel da Cruz saciou-lhe a fome e ofereceu pousada em sua casa, na década de 1990.

Miguel da Cruz e o Violeiro, na praia de Cambury, Julho de 2009.